Lactato como combustível
Em linguagem simples
Um triatleta prepara-se durante meses para um Ironman. Durante as longas etapas de ciclismo, o seu lactato sobe muito e, ao correr, sente pernas pesadas, queixas de estômago e perda de concentração. Porque é que um atleta consegue continuar indefinidamente e outro cai por terra? A antiga história dizia: o lactato é um resíduo que acidifica os músculos. Isso não é verdade.
O lactato é, na verdade, combustível. O teu corpo devolve-o aos músculos, ao coração e ao cérebro para dele extrair energia. E, curiosamente, certas bactérias intestinais conseguem converter o lactato em propionato, um ácido gordo de cadeia curta que dá energia extra aos músculos. O que é resíduo para uns torna-se combustível para outros — e regressa como energia. Quem usa este sistema de forma eficiente acidifica menos e aguenta mais tempo. A eficiência com que isso acontece varia de pessoa para pessoa e depende do teu microbioma e da tua resiliência mitocondrial.
The science behind
A ideia clássica de que o lactato é um resíduo que causa fadiga foi revista: a lactate shuttle descreve como o lactato é transportado entre e dentro das células e serve de fonte de energia para os músculos, o coração e o cérebro. Uma descoberta muito discutida na Cell Metabolism (2019, Scheiman et al.) mostrou que os atletas de resistência tinham mais bactérias Veillonella após o esforço, as quais convertem o lactato em propionato — um AGCC que pode voltar a servir de combustível. Em modelos animais, isto melhorou a capacidade de resistência, um exemplo marcante de crosstalk hospedeiro-microbioma.
Uma maior diversidade no microbioma anda a par de um melhor desempenho e de menos queixas gastrointestinais nos atletas de resistência (Frontiers in Nutrition), ao passo que a resiliência mitocondrial determina a eficiência com que o lactato e os ácidos gordos são utilizados no esforço extremo (Sports Medicine). Assim se interligam três sistemas: o músculo que produz o lactato, as mitocôndrias que o queimam e o microbioma que o recicla. A acidificação passa então a ser menos um sinal de ‘resíduo a mais’ e mais de um sistema que não faz circular o combustível com rapidez suficiente.
O fio condutor é o co-metabolismo: se alguém reutiliza o lactato com fluidez ou fica preso nele resulta da interação conjunta do ADN, do microbioma (presença de bactérias que utilizam o lactato), dos metabolitos e do estilo de vida (treino, alimentação, recuperação). Isso explica porque é que um trabalho de treino idêntico resulta numa continuação fluida para um atleta e num colapso para outro. Esta leitura é de apoio e observacional — não é um diagnóstico médico.
Ilustração & CosmoTalks

Como o teu microbioma acompanha o treino, a recuperação e o desempenho — cinco episódios.
- T4·E1 — Os teus intestinos também treinam
- T4·E2 — A alimentação como combustível e como sinal
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- T4·E4 — Inflamação: aliada e sabotadora
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• Brooks GA. (2018) — The science and translation of lactate shuttle theory. Cell Metabolism.
• Clauss M., et al. (2021) — Exercise, gut microbiome and performance. Front Nutr.
• Van Gucht P. — EDGE (trilogia COSMO): energia, resistência e crosstalk.
Perguntas frequentes
- O lactato mesmo não é um resíduo?
- Não. O lactato é um combustível que o teu corpo devolve aos músculos, ao coração e ao cérebro. Algumas bactérias intestinais chegam mesmo a convertê-lo em energia extra.
- O que fazem as bactérias Veillonella?
- Podem converter o lactato em propionato, um ácido gordo de cadeia curta que volta a servir de combustível — um exemplo de crosstalk hospedeiro-microbioma.
- Porque é que eu acidifico mais depressa do que outra pessoa?
- A acidificação depende da rapidez com que o teu corpo faz circular e reutiliza o lactato, em parte determinada pela resiliência mitocondrial e pelo microbioma.
- Posso melhorar a minha utilização do lactato?
- O treino e um microbioma diversificado costumam ajudar. A abordagem exata é pessoal; isto continua a ser de apoio, não é aconselhamento médico.
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